16.12.17

Roger Wolfe (Democracia)





DEMOCRACIA



Otra maldita tarde
de domingo, una de esas
tardes que algún día escogeré
para colgarme
del último clavo ardiendo
de mi angustia.
En la calle
familias con niños,
padres y madres
sonrosadamente satisfechos
de su recién cumplido
deber electoral;
gente encorvada sobre radios
que escupen datos, porcentajes
en los bancos.
Corderos de camino al matadero
dándole a escoger el arma
al matarife.


Roger Wolfe





Outra maldita tarde
de domingo, uma destas
tardes que escolherei
um dia para me pendurar
do último prego a arder
da minha angústia.
Na rua
famílias com crianças,
pais e mães
muito satisfeitos
de seu recém-cumprido
dever eleitoral;
gente dobrada sobre rádios
que cospem dados, percentagens
em bancos.
Carneiros a caminho do matadouro
dando a arma a escolher
ao carniceiro.


(Trad. A.M.)


> Outras versões: O melhor amigo / Bizarrias e minudências (Ricardo Marques)

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14.12.17

João José Cochofel (Não desafies a alegria)





(XVII)


Não desafies
a alegria.

Quando ela chegue
um instante só
não lhe perguntes
porquê?

Estende as mãos ávidas
para o calor
da cinza fria.


João José Cochofel

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12.12.17

Rogelio Guedea (Flash back)





FLASH BACK



he vuelto al mismo lugar en el que escribí
aquel poema que habla de cuando solíamos
venir al centro comercial con los niños,
en las tardes de domingo/
me he sentado en el mismo lugar para ver todavía
si entras o sales, o alcanzo a verte a lo lejos
probándote blusas para el próximo verano,

pero me doy cuenta de pronto que aquel que escribió
el poema y éste que lo recuerda ya no son
el mismo hombre // quisiera poder decirte, decirme
en qué he cambiado desde entonces, pero no podría,
todo es tan confuso y hay tanta gente que entra y sale,
incontables manos y pies, que no podría
en una mañana como ésta decírtelo/

sólo recordaba con claridad aquel poema y al hombre
que lo habitaba aquí mismo sentado como estoy ahora,
esperando que tu mano me toque por el hombro y me diga
que todo ha sido una mala pasada, que no es cierto
que te haya perdido nunca para siempre y que
es hora  – tarde ya, sí –  de volver
a casa.

Rogelio Guedea




voltei ao mesmo lugar em que fiz
aquele poema que fala de quando soíamos
vir ao centro comercial com as crianças, nas tardes de domingo/
sentei-me no mesmo lugar para ver ainda
se entras ou sais, ou se consigo ver-te ao longe
experimentando blusas para o próximo Verão,

mas dou-me conta de repente que aquele que escreveu
o poema e este que o recorda não são já
o mesmo homem// queria poder dizer-te, dizer-me
em que é que mudei desde então, mas não posso,
é tudo tão confuso e há tanta gente a entrar e sair,
incontáveis mãos e pés, que não poderia
dizer-to numa manhã como esta/

recordava só claramente o tal poema e o homem
que o habitava sentado aqui mesmo como eu estou agora,
esperando que a tua mão me toque no ombro e me diga
que foi tudo um mau passo, que não é verdade
ter-te perdido para sempre e que
é tempo – tarde já, sim – de voltar
para casa.

(Trad. A.M.)


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10.12.17

Rocío Wittib (Dói, mas mantém-nos vivos)





duele pero nos mantiene vivos
que el olor salvaje del recuerdo
muerda de tanto en tanto el corazón


 Rocío Wittib




dói mas mantém-nos vivos
o perfume silvestre da recordação
morder-nos de quando em quando
o coração


(Trad. A.M.)

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8.12.17

João Habitualmente (Domingo)





DOMINGO



estes vagos milhares de namorados
que marginam as bordas dos domingos
de mãos dadas e dissipam perfumes
densos nos contornos da baixa portuense
ou serão pipocas derramadas nos passeios?
lá vão elas a
profusão dos líquidos aromas chanel
eau violette xailes
roxos esburacados de rendas batons
vivos tanta
cor
tanta cor para destinos black & white
sabes como me fizeste noite?
e como me obrigas
a reaprender devagar o comprimento dos dias?
este grande deserto e os
rios apagados
acender a chama recomeçar a luz
tarefa meticulosa
Há pedras habitadas Pássaros que não migram
só para não sofrerem a partida
esperam então um ano a fio
pelo regresso dos companheiros


João Habitualmente

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6.12.17

Roberto Juarroz (Sim, há um fundo)





Sí, hay un fondo.

Pero hay también un más allá del fondo,
un lugar hecho con caras al revés.

Y allí hay pisadas,
pisadas o por lo menos su anticipo,
lectura de ciego que ya no necesita puntos
y lee en lo liso
o tal vez lectura de sordo
en los labios de un muerto.

Sí, hay fondo.

Pero es el único lugar donde empieza el otro lado,
simétrico de éste,
tal vez éste repetido,
tal vez éste y su doble,
tal vez éste.


Roberto Juarrroz




Sim, há um fundo.

Mas há também um para além do fundo,
um lugar feito de caras do avesso.

E há pegadas aí,
pegadas ou a sua sugestão,
leitura de cego que dispensa pontos
e lê no branco
ou talvez leitura de surdo
nos lábios de um morto.

Sim, há fundo.

Mas é o único lugar onde começa o outro lado,
simétrico deste,
talvez este repetido,
talvez este e seu duplo,
talvez este.

(Trad. A.M.)

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4.12.17

Roberto Bolaño (A sorte)





LA SUERTE



Él venía de una semana de trabajo en el campo
en casa de un hijo de puta y era diciembre o enero,
no lo recuerdo, pero hacía frío y al llegar a Barcelona la nieve
comenzó a caer y él tomó el metro y llegó hasta la esquina
de la casa de su amiga y la llamó por teléfono para que
bajara y viera la nieve. Una noche hermosa, sin duda,
y su amiga lo invitó a tomar café y luego hicieron el amor
y conversaron y mucho después él se quedó dormido y soñó
que llegaba a una casa en el campo y caía la nieve
detrás de la casa, detrás de las montañas caía la nieve
y él se encontraba atrapado en el valle y llamaba por teléfono
a su amiga y la voz fría (¡fría pero amable!) le decía
que de ese hoyo inmaculado no salía ni el más valiente
a menos que tuviera mucha suerte


ROBERTO BOLAÑO
La Universidad Desconocida
(2007)





Ele vinha de uma semana de trabalho agrícola
em casa de um filho da puta e era dezembro ou janeiro,
não me lembro, mas fazia frio e ao chegar a Barcelona a neve
começou a cair e ele tomou o metro até à esquina
da casa da amiga e telefonou-lhe para
descer e ver a neve. Uma bela noite, sem dúvida,
e a amiga convidou-o para um café e a seguir fizeram amor
e conversaram e muito depois ele caiu no sono e sonhou
que chegava a uma casa no campo  e a neve caía
atrás da casa, caía a neve atrás dos montes
e ele encontrava-se atascado no vale e telefonava
à amiga e a voz fria (fria, mas amável) dizia-lhe
que daquele buraco imaculado nem o mais valente saía
a menos que tivesse muita sorte
  

(Trad. A.M.)

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