22.7.17

José Emilio Pacheco (O 'y')





LA “Y”



En los muros ruinosos de la capilla
florece el musgo pero no tanto
como las inscripciones: la selva
de iniciales talladas a navaja en la piedra
que, unida al tiempo, las devora y confunde.

Letras borrosas, torpes, contrahechas.
A veces desahogos, insultos.
Pero invariablemente
las misteriosas iniciales unidas
por la “y” griega:
manos que acercan,
piernas que se entrelazan, la conjunción
copulativa, huella en el muro
de cópulas que fueron o no se realizaron.
Cómo saberlo

Porque la “y” del encuentro también simboliza
los caminos que se bifurcan: E.G.
encontró a F.D. Y se amaron.
¿Fueron “felices para siempre”?
Claro que no, tampoco importa demasiado.

Insisto: se amaron
una semana, un año o medio siglo.
Y al fin
la vida los separó o los desunió la muerte
(una de dos sin otra alternativa).

Dure una noche o siete lustros, ningún amor
termina felizmente (se sabe).
Pero aun la separación
no prevalecerá contra lo que juntos tuvieron.

Aunque M.A. haya perdido a T.H.
y P. se quede sin N.,
hubo el amor y ardió un instante y dejó
su humilde huella, aquí entre el musgo,
en este libro de piedra.


José Emilio Pacheco

[Escomberoides]





Nos muros da capela em ruínas
o musgo alastra, mas não tanto
como as inscrições, a selva
de iniciais marcadas à navalha na pedra,
que as devora e confunde, aliada ao tempo.

Letras confusas, desajeitadas, contrafeitas.
Às vezes desabafos, insultos.
Mas invariavelmente
as misteriosas iniciais unidas
pelo “y” grego,
mãos que acercam,
pernas que se enlaçam, a conjunção
copulativa, marca no muro
de cópulas que foram
ou não chegaram a ser.
Como sabê-lo?

Porque o “y” do encontro também simboliza
caminhos que se bifurcam: E.G.
encontrou F.D. E amaram-se.
Foram “felizes para sempre”?
Claro que não, nem isso importa muito.

Insisto, amaram-se
uma semana, um ano ou meio século.
E por fim
a vida separou-os ou desuniu-os a morte
(uma de duas, sem mais alternativa).

Dure uma noite ou sete lustros, nenhum amor
termina de modo feliz (é sabido).
Mas também a separação
não prevalecerá contra o que juntos tiveram.

Mesmo que M.A. tenha perdido T.H.
e P. fique sem N.,
houve amor e ardeu um instante e deixou
uma marca humilde, no meio do musgo,
neste livro de pedra.


(Trad. A.M.)

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21.7.17

Charles Bukowski (Nossa curiosa posição)





OUR CURIOUS POSITION



Saroyan on his deathbed said,
"I thought I would never die. . . "

I know what he meant:
I think of myself forever
rolling a cart through a
supermarket
looking for onions, potatoes
and bread
while watching the misshapen
and droll ladies push
by.
I think of myself forever
driving the freeway
looking through a dirty
windshield with the radio tuned to
something I don't want
to hear.
I think of myself forever
tilted back in a
dentist's chair
mouth
crocodiled open
musing that
I'm in
Who's Who in America.
I think of myself forever
in a room with a depressed
and unhappy woman.
I think of myself forever
in the bathtub
farting underwater
watching the bubbles
and feeling proud.

but dead, no. . .
blood pin-pointed out of
the nostrils,
my head cracking across
the desk
my fingers grabbing at
darkspace...
impossible ...

I think of myself forever
sitting upon the edge
of the bed
in my shorts with
toenail clippers
cracking off
huge ugly chunks
of nail
as I smile
while my white cat
sits in the window
looking out over the
town
as the telephone rings...

in between the
punctuating
agonies
life is such a
gentle habit:
I understand what
Saroyan
meant:

I think of myself
forever walking down the
stairs
opening the door
walking to the
mailbox
and finding all that
advertising
which
I don't believe
either.


Charles Bukowski



Saroyan dizia no seu leito de morte
“eu nunca pensei que morria”...

e eu percebo-o,
vendo-me a mim mesmo para sempre
a puxar um carrinho
no supermercado
em busca de cebolas, batatas
e pão,
e a ver passar as matronas
 ao lado a empurrar.
Vejo-me a conduzir eternamente
pela estrada,
olhando pelo vidro sujo, com o rádio
sintonizado em algo que não queria escutar.
Vejo-me recostado para sempre
na cadeira do dentista
a boca aberta como um crocodilo,
a pensar que figuro na lista
dos mais importantes da América.
Vejo-me num quarto para sempre
com uma mulher deprimida, infeliz.
Vejo-me na banheira
 a puxar uns traques subaquáticos
e a contemplar as bolhas, orgulhoso.

Mas morto, não...
o sangue a espirrar-me
do nariz,
a cabeça a estoirar-me no escritório,
os meus dedos filados
no espaço negro,
impossível.

Vejo-me eternamente sentado
na beira da cama,
em calções,
a cortar as unhas dos pés
sorrindo
para o gato sentado na janela
a olhar para fora
enquanto o telefone toca...

Por entre agonias pontuais
é um hábito catita, a vida:
percebo o que Saroyan
queria dizer:

Vejo-me no tempo a descer
as escadas,
abrir a porta,
ir à caixa do correio
e topar com a tralha
da publicidade
em que tão pouco acredito.


(Trad. A.M.)

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20.7.17

José Daniel Espejo (A máquina)





LA MÁQUINA



Nos perseguimos
para matarnos.
Esperamos el momento oportuno
para el golpe por sorpresa
la emboscada definitiva.
En la práctica esta guerra
se reduce a una larga
continua vigilancia. Lo peor
son las noches afilando cuchillos.


José Daniel Espejo




Para nos matarmos
nos perseguimos.
Esperamos o momento azado
para o ataque de surpresa,
a emboscada fatal.
Na prática, esta guerra
reduz-se a uma longa
contínua vigilância. O pior
são as noites a afiar as facas.

(Trad. A.M.)

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19.7.17

José Corredor-Matheos (Que seja Primavera)





Que sea primavera
cuando escribas,
y el día, como hoy,
tenga un sol cuya luz
no proyecte más sombra
que la que dan las alas
de los pájaros.
Que tus pasos se alejen
más de ti,
y que cada palabra,
cada verso,
sean los que esperabas
y no acababan nunca
de llegar.
Y cuando estés muy lejos
y hayas dejado atrás
las dunas del desierto,
donde las flores vuelvan
a brotar,
no te importe seguir.


José Corredor-Matheos





Que seja Primavera
quando escreveres,
e o dia, como hoje,
tenha um sol cuja luz
não projecte mais sombra
que aquela que dão
as asas dos pássaros.
Que teus passos se afastem
mais de ti,
e cada palavra,
cada verso,
sejam os que esperavas
e nunca mais acabavam de vir.
E quando estiveres muito longe
e tiveres deixado para trás
as dunas do deserto,
onde as flores brotem de novo,
não te importe continuar.



(Trad. A.M.)

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18.7.17

Camilo Pessanha (Imagens que passais pela retina)





Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, porque não vos fixais?
Que passais como a água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!... 

Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
- Porque ides sem mim, não me levais? 

Sem vós o que são os meus olhos abertos?
- O espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos... 

Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão casual de meus dedos incertos,
- Estranha sombra em movimentos vãos. 



Camilo Pessanha

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17.7.17

José Antonio Fernández Sánchez (Bem-aventurados)





BIENAVENTURADOS



Bienaventurado el latifundista,
suya será, también, la Tierra Prometida.
El dictador de las colonias de ultramar
pues su bigote merecerá el embalsamiento de los años.
Bienaventurado el político que escoge zapatos con cuña,
su voz será lo único que quede bajo el peso de una losa.
Bienaventurado el dios minúsculo
porque se rindió en el último peldaño, el caza recompensas,
suyo es el mérito de los salarios.
Bienaventurado el último poeta, bienaventurado sea, y alguna plaga reciba.
Los cierra sobres, siempre que den por terminada su huelga indefinida.
Y así se les sequen los labios, decía una maldición gitana.
Bienaventurado el lector que cree haber encontrado el doble sentido,
el marido juguetón que utiliza un puño americano.
Bienaventurado el cura de mi pueblo, famoso por sus blancas manos,
los empresarios paternalistas, por incumplir nueve Mandamientos.
Bienaventurado el consentidor de plegarias porque de él será
el privilegio del último suspiro, el saqueador de columnas,
también bienaventurado, inventor de los paraguas desechables.
Bienaventurado el pescador de aguas bravas, el cuerno del unicornio,
la figura de Buda en estado catatónico, el arlequín alegre,
bienaventurado el domador de mariposas, el carcelero que realiza horas extras,
 el listo y la lista, el amo de la casa, las casas sin cosas, los santos oficios.
Bienaventurado el marmolista, merecedor de los royalties de nuestros epitafios y amén.


José Antonio Fernández Sánchez






Bem-aventurado o latifundiário,
sua será também a Terra Prometida.
O ditador das colónias do ultramar
pois seu bigode será embalsamado pelos anos.
Bem-aventurado o político que escolhe sapatos de ponta,
restará apenas sua voz sob o peso do mármore.
Bem-aventurado o deus pequenino
porque se rendeu no último degrau, o caça-recompensas,
que seu é o mérito da paga.
Bem-aventurado o derradeiro poeta, bem-aventurado seja,
e que alguma chaga receba.
Os fechadores de envelopes, sempre que dêem por terminada a sua greve indefinida.
E que lhes fiquem secos os lábios, segundo a maldição dos ciganos.
Bem-aventurado o leitor que pensa ter achado o duplo sentido,
o marido brincalhão que usa um punho americano.
Bem-aventurado o padre lá da paróquia, mais as suas mãos delicadas,
e os empresários paternalistas, por incumprirem nove Mandamentos.
Bem-aventurado o pagador de promessas, porque dele será
o condão do último suspiro, o salteador de estradas,
bem-aventurado seja, inventor dos sombreiros descartáveis.
Bem-aventurado o pescador de águas bravas, o corno do unicórnio,
a figura do Buda em estado catatónico, o arlequim alegre,
bem-aventurado o domador de borboletas, o carcereiro que faz horas extra,
o pronto e a pronta, o dono da casa, as casas sem coisas, os santos ofícios.
Bem-aventurado o marmorista, credor das royalties de tanto epitáfio, amém.


(Trad. A.M.)


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16.7.17

José Ángel Valente (A poesia)





LA POESÍA



Se fue en el viento,
volvió en el aire.

Le abrí en mi casa
la puerta grande.

Se fue en el viento.
Quedé anhelante.

Se fue en el viento,
volvió en el aire.

Me llevó adonde
no había nadie.

Se fue en el viento,
quedó en mi sangre.

Volvió en el aire.


José Ángel Valente




Foi-se no vento,
voltou pelo ar.

Abri-lhe em casa
a porta grande.

Foi-se no vento.
Fiquei anelante.

Foi-se no vento,
voltou pelo ar.

Levou-me aonde
não havia ninguém.

Foi-se no vento,
ficou em meu sangue.

Voltou pelo ar.



(Trad. A.M.)

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