22.11.17

Raúl Gómez Jattín (O mês adolescente)





EL MES ADOLESCENTE



Llegó Abril 
con sus aguas escasas 
colocando diamantes en cada hoja 
El mes de los árboles aún sedientos 
El mes de la enredadera que trepa el muro 

Joven Abril como una adolescente casi virgen 
te deseé en las tardes de verano 
y ahora llegas primoroso 
a encantarme con el batir de tu llovizna 

Amado Abril beso tu piel de esmeralda 
me entristezco bajo tus cielos grisáceos 
Con las voces de tus pájaros 
me hago un nido del tamaño de mi deseo 

En ti estremecido de ternura 
derramo la leche agria del amor que ha esperado


Raúl Gómez Jattin




Aí está Abril
com suas águas escassas
a pôr diamantes em cada folha
O mês das árvores ainda sedentas
O mês da trepadeira a subir pelo muro

Jovem Abril como adolescente quase virgem
assim te desejei em tardes de verão
e aí estás tu primoroso
a seduzir-me com os pingos do teu chuvisco

Amado Abril beijo-te a pele de esmeralda
triste debaixo de teus céus de cinza
fazendo com os gritos dos pássaros
um ninho do tamanho do meu desejo

Sobre ti a tremer de ternura
derramo o leite azedo de um amor retardado



(Trad. A.M.)

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20.11.17

João de Mancelos (Palavras)





PALAVRAS              

                          

Vem aí o Verão,
e as palavras trocam de pele,
algumas, de raça até.

O canto já não é o canto mesmo,
e mesmo as suas proas
são agora doutras bocas,
salgadas, e mais a sul.

Hereditárias de sol,
elas desabrocham, as palavras,
um doce fruto escorrendo pela voz,
o rumor leve, adolescente,

o lento fiar do vento
nas suas conchas naufragadas. 


João de Mancelos

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18.11.17

Rafael Cadenas (Poética)





POÉTICA



Que cada palabra lleve lo que dice.
Que sea como el temblor que la sostiene.
Que se mantenga como un latido.

No he de proferir adornada falsedad ni poner tinta dudosa ni añadir
brillos a lo que es.
Esto me obliga a oírme. Pero estamos aquí para decir verdad.
Seamos reales.
Quiero exactitudes aterradoras.
Tiemblo cuando creo que me falsifico. Debo llevar en peso mis
palabras. Me poseen tanto como yo a ellas.

Si no veo bien, dime tú, tú que me conoces, mi mentira, señálame
la impostura, restriégame la estafa. Te lo agradeceré, en serio.
Enloquezco por corresponderme.
Sé mi ojo, espérame en la noche y divísame, escrútame, sacúdeme.


Rafael Cadenas




Que cada palavra tenha o que diz,
que seja como o tremor que a sustém,
que se mantenha como latejo.

Não profira composta falsidade,
nem acrescente cor duvidosa
nem dê brilho àquilo que existe.
Isto me obriga a escutar-me. Mas
estamos aqui para falar verdade.
Sejamos autênticos.
Eu quero a exactidão aterradora,
até tremo quando penso que minto.
Tenho de carregar com as minhas palavras,
que me possuem tanto como eu a elas.

Se eu não vir bem, tu que me conheces,
diz-me da minha mentira, indica-me
a imposturice, esfrega-me o engano.
A sério que agradeço.
Quem me dera amar e ser amado.
Sê tu a minha vista, espera-me no escuro,
divisa-me, escogita-me, abana-me.


(Trad. A.M.)

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17.11.17

Raúl Ferruz (Para-quedistas mortos)





PARACAIDISTAS MUERTOS



todos pensábamos que el futuro era un sitio mejor hasta que se convirtió en presente

todas esas suposiciones como cartas de un mago lanzadas al aire,
cayendo como paracaidistas muertos

esas pócimas de felicidad disipadas
como latas abiertas en el fondo de la nevera,
bajo la bombilla cubierta por vaho y mierda

estábamos convencidos de sonreír en la autopsia,

pero la neblina escocesa ha ido ensombreciendo cada píxel de arena
de una playa imaginada,
en la que apetecía morir ahogados, felices, y borrachos

incluso las flores, sobre las tumbas, tenían mejor pinta, más vida

el futuro ha venido a decirnos, que fue error enamorarnos de él
sólo teníamos que follárnoslo


Raúl Ferruz
 



todos pensávamos que o futuro era um lugar melhor até se converter em presente

todas essas suposições com cartas de magia atiradas ao ar,
a cair como para-quedistas mortos

essas poções de felicidade dissipadas
como latas abertas no fundo do frigo
por baixo da bomba coberta de vapor e de merda

estávamos convencidos de sorrir na autópsia,

mas a neblina escocesa foi sombreando cada pixel de areia
de uma praia imaginada,
onde apetecia morrer afogados, felizes e borrachos

até as flores, nas campas, tinham melhor pinta, mais vida

vindo o futuro dizer-nos que foi um erro apaixonar-nos por ele
só tínhamos de o foder

(Trad. A.M.)


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16.11.17

Camilo Castelo Branco (Batalhas sem baixas)





Trocavam-se saraivadas de ballas a distancia de tiro de pistola com a pontaria certeira do ódio entre soldados disciplinados e caçadores dos desfiladeiros do Gerez — pois, senhores, não morreu ninguém.

Exemplo : uma vez, padre Casimiro, com dous homens, sahe á frente da tropa, e, ao alcance de um tiro de caça, exclama : — «Rapazes, aqui está o padre Casimiro, commandante do povo de Vieira, a quem procurastes para prender. Ou vos rendeis, ou nenhum de vós fica hoje vivo ! »

A soldadesca, que estava deitada, levanta-se, mas não se rende. O padre aponta-lhe e desfecha uma pistola de cavallaria. A tropa responde-lhe com uma descarga cerrada. O padre carrega de novo e atira. A tropa carrega e desfecha outra descarga. Pois das 340 balas não houve uma que acertasse no padre nem raspasse pelos dois guerrilhas invulneráveis. 

Diria Boileau: ‘Le vrai peut quelquefois n’être pas vraisemblable’.
(p. 65)


CAMILO CASTELO BRANCO
Maria da Fonte
Porto (1901)

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14.11.17

Piedad Bonnett (Biografia de um homem com medo)





BIOGRAFÍA DE UN HOMBRE CON MIEDO



Mi padre tuvo pronto miedo de haber nacido.
Pero pronto también
le recordaron los deberes de un hombre
y le enseñaron
a rezar, a ahorrar, a trabajar.
Así que pronto fue mi padre un hombre bueno.
(“Un hombre de verdad”, diría mi abuelo).
No obstante,
—como el perro que gime, embozalado
y amarrado a su estaca— el miedo persistía
en el lugar más hondo de mi padre.
De mi padre,
que de niño tuvo los ojos tristes y de viejo
unas manos tan graves y tan limpias
como el silencio de las madrugadas.
Y siempre, siempre, un aire de hombre solo.
De tal modo que cuando yo nací me dio mi padre
todo lo que su corazón desorientado
sabía dar. Y entre ello se contaba
el regalo amoroso de su miedo.
Como un hombre de bien mi padre trabajó cada mañana,
sorteó cada noche y cuando pudo
se compró a cuotas la pequeña muerte
que siempre deseó.
La fue pagando rigurosamente,
sin sobresalto alguno, año tras año,
como un hombre de bien, el bueno de mi padre.


Piedad Bonnett

[Emma Gunst]




Meu pai cedo teve medo de ter nascido.
Mas cedo também
lhe recordaram os deveres de um homem
e lhe ensinaram
a rezar, a poupar, a trabalhar.
E daí cedo meu pai se fez um homem bom.
('Um homem de verdade', diria meu avô).
Contudo
- como cachorro gemendo, açaimado
e amarrado a seu poste - o medo persistia
no mais fundo de meu pai.
De meu pai,
que tinha em pequeno uns olhos tristes e de velho
e mãos tão limpas e graves
como o silêncio das madrugadas.
E sempre, ainda e sempre, um ar de solitário.
De tal modo que quando eu nasci meu pai me deu
tudo o que sabia dar
seu coração desorientado. Onde se incluía
a oferta do seu medo.
Como um homem de bem, meu pai trabalhou
cada manhã, contornou cada noite
e logo que pôde comprou a prestações
a pequena morte que sempre almejou.
Foi-a pagando pontualmente,
sem sobressaltos, ano após ano,
como um homem de bem, o bom do meu pai.

(Trad. A.M.)

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13.11.17

Pedro Salinas (A forma de querer tua)





La forma de querer tú
es dejarme que te quiera.
El sí con que te me rindes
es el silencio. Tus besos
son ofrecerme los labios
para que los bese yo.
Jamás palabras, abrazos,
me dirán que tú existías,
que me quisiste: jamás.
Me lo dicen hojas blancas,
mapas, augurios, teléfonos;
tú, no.
Y estoy abrazado a ti
sin preguntarte, de miedo
a que no sea verdad
que tú vives y me quieres.
Y estoy abrazado a ti
sin mirar y sin tocarte.
No vaya a ser que descubra
con preguntas, con caricias,
esa soledad inmensa
de quererte sólo yo.


Pedro Salinas 





A forma de querer tua
é deixar-me que eu te queira.
O sim com que te me rendes
é o silêncio. Teus beijos
são ofertar-me os lábios
para que os beije eu.
Jamais palavras, abraços,
me dirão que existias tu,
que me quiseste, jamais.
Dizem-mo é folhas brancas,
mapas, augúrios, telefones;
tu, não.
E eu fico abraçado a ti,
sem perguntar, de medo
que não seja verdade
que tu vives e me queres.
E fico abraçado a ti
sem olhar nem te tocar.
Não vá que descubra
com perguntas, com carinhos,
essa solidão imensa
de querer-te só eu.


(Trad. A.M.)

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