24.10.17

Jenaro Talens (Epitáfio)





EPITAFIO                   
         


Fui un viejo juglar, y conté historias.
Mi nombre os es indiferente.
Sólo dejo constancia de mi oficio
porque fue oficio quien dictó mis versos
no la pequeña vida que viví,
ni su dolor, ni su insignificancia.
Ella murió conmigo, y aquí yace,
desnuda como yo, bajo esta piedra.

Jenaro Talens





Um velho malabarista fui,
contador de histórias
- meu nome não conta.
Deixo menção do ofício,
porque ele é que me ditou os versos,
não a vida pequena que vivi,
sua dor, ou a insignificância.
Ela morreu comigo, e aqui jaz,
desnuda como eu, sob esta pedra.


(Trad. A.M.)

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23.10.17

Juan Bonilla (Pai nosso)





Padre nuestro que estás en paradero
desconocido, líbranos de ti.

No nos llenes el tiempo con tu ausencia.

Tú utilizaste el fuego del infierno
para encender el sol de nuestra infancia.

No nos des certidumbre de tus ojos
después de que los nuestros ya no puedan
mirar la rosa negra de la vida.

Oh cordura de Dios que catas
el pecado del mundo,
dispendia tu piedad con los cobardes,
los que te encuentran en cualquier fenómeno
de meteorología, los que imponen
tu Nombre en leyes y oraciones.

Confórmate con ser un huésped
de nuestra infancia rota en mil pedazos.

Vacíanos de Ti,
regresa a tus orígenes
a aquella imensa noche de tormenta
en la que el miedo de unos monos te inventara.

Juan Bonilla




Pai nosso que estás em parte
incerta, livra-nos de ti.

Não ocupes nosso tempo com tua ausência.

Tu, que usaste o fogo do inferno
para acender o sol da nossa infância.

Não nos dês a certeza de teus olhos
quando os nossos já não puderem
olhar a rosa negra da vida.

Ó cordeiro de Deus que tiras
os pecados do mundo,
despende tua piedade com os cobardes,
os que te vêem em qualquer fenómeno
meteorológico, os que impõem
teu Nome em leis e orações.

Conforma-te com ser um hóspede
de nossa infância partida em mil pedaços.

Vazia-nos de ti,
regressa à tua origem,
essa imensa noite de tormenta
em que o medo de alguns macacos te inventou.


(Trad. A.M.)



> Outro pai-nosso: Nicanor Parra

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22.10.17

Camilo Castelo Branco (Maria da Fonte)





Foi a Maria da Fonte a personificação fantástica de uma colectividade de amazonas de tamancos, ou realmente existiu, em corpo e fouce roçadoura, uma virago revolucionaria com aquelle nome e appellido?


É o que vamos esmiuçar. (p. 17)


CAMILO CASTELO BRANCO
Maria da Fonte
Porto (1901)

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21.10.17

Alfonsina Storni (Cansaço)





CANSANCIO



Todos, todos tenemos una hora cobarde,
una hora de hastío cuando muere la tarde.

Cuando se va el amigo que nos trae calor,
el amigo de oro, el Mago Gestador.

Cuando se juntan todas las impresiones malas
y el alma es un tejido de finísimas alas.

Cuando puede decirse: lo que fué no será;
lo que no hice hoy no lo haré nunca ya.

Es entonces, cobarde, que me acosa el deseo
de no ser y ni pienso, ni trabajo, ni creo.

Es una nulidad completa de mí misma
que me asusta y me hiere, me subyuga y abisma.

Es entonces que yo quisiera ser así
como una cosa nimia, futil, baladí.

Un chiche que se lleva guardado en el bolsillo.
una prenda cualquiera, un reloj, un anillo…

Ser una cosa muerta que la llevan cargada
y que no sabe nada y que no piensa nada.

Todos, todos tenemos una hora cobarde,
una hora de hastío cuando muere la tarde.


Alfonsina Storni





Todos nós, todos temos uma hora cobarde,
uma hora de tédio ao morrer da tarde.

Quando parte o amigo que nos dá calor,
o amigo de ouro, o Mago Criador.

Quando se juntam as más impressões 
e a alma é um tecido de finíssimas asas.

Quando pode dizer-se: o que foi já não será,
o que hoje não fiz nunca mais o farei.

É então, cobarde, que me acossa o desejo
de não ser e nem penso, nem trabalho, nem creio.

É uma completa nulidade de mim mesma
que me assusta e me fere, me subjuga e me espanta.

É então que eu gostaria de ser assim,
coisa nímia, fútil, banal.

Um brinquedo que se guarda no bolso,
uma jóia qualquer, um anel, um relógio...

Ser uma coisa morta que se leva às costas,
que não sabe nada, que não pensa em nada.

Todos nós, todos temos uma hora cobarde,
uma hora de tédio ao morrer da tarde.


(Trad. A.M.)


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20.10.17

Silvia Ugidos (Sótão)





DESVÁN



El desván infantil donde sestea el tiempo
antiguo y polvoriento de todos los veranos
y la luz, ese enigma, que se posa despacio
entre objetos y libros, fotos de antepasados
espiando mis juegos
con las rígidas ropas de los recién casados.
Y en un rincón manzanas, pequeñas, perfumadas,
aquel baúl sin llave, misterioso y cerrado,
símbolo de los años que yo aún no conocía,
que estaban por llegar, que ahora son pasado.
Baúl adolescente que abrimos una tarde
fascinados, con miedo, silenciosos, solemnes,
tomados de la mano,
compartiendo los besos de una infancia borrosa
que de pronto nos deja y se aleja y se pierde.
He venido de nuevo a revolverlo todo,
a buscar entre fotos y naftalina y libros
yo no sé qué memoria que guardo de mí misma.
He venido otra vez, como antes, por juego,
esperando encontrar dormido en el desván
un verso elemental, una trampa, algún cepo
donde el tiempo al pasar se pillara los dedos.

Silvia Ugidos




O sótão da infância em que dorme o tempo
antigo e poeirento dos verões
e a luz, esse enigma, que pousa devagar
no meio de livros e objectos, fotos antigas,
espiando-me as brincadeiras
com as roupas tesas dos recém-casados.
E num canto maçãs, miúdas, perfumadas,
aquele baú sem chave, misterioso e fechado,
símbolo dos anos ainda por conhecer,
então do porvir e hoje já passado.
Baú adolescente que um dia abrimos
fascinados, a medo, silenciosos, solenes,
de mãos dadas,
partilhando os beijos de uma infância ilusória
que de repente nos deixa, e se alonja, e se perde.
Aqui venho de novo, a remexer tudo,
buscando entre fotos e livros e naftalina
não sei já que memória que guardo de mim mesma.
Aqui venho outra vez, como dantes, por brincadeira,
à espera de encontrar adormecido no sótão
um verso elementar, uma cilada, algum cepo
em que o tempo ao passar entalasse os dedos.



(Trad. A.M.)

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19.10.17

José Rentes de Carvalho (Ajuste de contas)





Estranhamente, o momento que deveria ser um de grande medo, vivera-o ele em paz, com a firmeza de quem tem razão e ajusta contas.

Quando recordava o negrume da noite sem lua, a canelha dos palheiros, sentia o corpo entesar-se, de novo se via a abrir e a fechar a navalha de barba, correndo os dedos pela macieza do cabo, a repetir a vontade que tinha de encarar o homem.

Porque não seria à traição, havia de saber quem tinha diante, queria vê-lo dar-se conta de que chegara a hora de pagar.

Lançou-se de frente, a navalha horizontal, ao tempo de vê-lo arregalar os olhos já a cabeça pendia, o talho cerce e tão fundo que quase o degolara, ele só por um triz escapando ao espichar do sangue.


J. RENTES DE CARVALHO
O Meças
(2016)

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18.10.17

Andrés Trapiello (É isto)





Es esto                                               
la temible muerte.
Ha llegado el final
y no tienes respuesta.
El vaso de cristal,
la flor sobre la mesa,
el dolor de partir
sin que tu corazón conozca
una sola razón
de estas tres cosas
sencillas.


Andrés Trapiello




É isto
a morte temível.
Chegou o final
e tu não tens resposta.
O copo de vidro,
a flor sobre a mesa,
a dor de partir
sem teu coração conhecer
uma só razão
dessas três coisas
singelas.


(Trad. A.M.)

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